segunda-feira, 19 de abril de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

poesia é

Outro dia me chegou um poema
de salto alto com adereços sutis
endereço de internauta
um quê de colegial
disse baixinho em um hálito
brisa de outono sua identidade...

sou poesia feminina

tentei afastar tal companhia atrevida
continuou pé-ante-pé no meu pé
me fez bailarino de linhas tingidas de grafite
às 3 da manhã não satisfeito
tocou fogo em meus pensamentos
me fez diurnos os sonhos

levitei meio torto entre os gêneros
que a mim se apresentavam
um poema que se dizia feminino
batia incessantemente com sua voz
em minhas idéias um quanto
radicais e colocou em semitons

minhas raízes vernaculares

ele, o poema – gênero masculino
(coisa que só os léxicos entendem)
sabendo-se ser feminina ou seria feminino
mas, a palavra feminino é masculina: o feminino
ou será masculino?
esquisito, não?

este poema de salto alto
roubou-me as horas madrugadas
fez-se companhia, como já disse, atrevida
e com dedos ágeis de tudo sei
preencheu o vazio até então
conhecido das minhas entrelinhas

escreveu que voltaria

no espelho da minha vontade
deixou embaçado ou embaçada
os embasamentos latinos da minha língua
não contente com a contenda
sem desfecho fiz-me estátua de rodin
e atônito indagador (cinderelamente)
com o saltinho alto de cristal entre as mãos
questionei à poesia
quando ele voltará, mesmo?
ela disse baixinho: quem sabe?
no próximo hálito
brisa de outono
quem sabe?

Sérgio Gerônimo, in CÓDIGO DE BARRAS, Oficina, Rio, 2007 e in CONVERSA PROIBIDA, Oficina, Rio, 2009

quarta-feira, 17 de março de 2010

TARDE DO DIA INFINDO

A magia não está perdida
às vezes a deixamos escapar
pelas frestas do coração
mas ela é inesgotável
e nos surpreende a cada esquina
quando pensamos
que o caminho inexistisse
ele permanece no limite do intransponível
é fogo-fátuo
é fogo-artefato
é fogo na arte do fato
consumível
poeta não queima - arde
na tarde do dia infindo

Sérgio Gerônimo, in XX ANTOLOGIA DA ALAP, Oficina, Rio/RJ, 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Mary Columbus

A estação ferroviária do méier ainda dormia
quando maria colombina
do alto de seus um metro e oitenta
mais dez de tamanco gritou
berrou lá de cima da ponte
ontem fui rainha
ontem fui rainha
naquela madrugada de cinzas
maria colombina olhos encerados
rímel des-ri-ti-ma-do
serpentinou umas cervas
e como fetiche repartiu-se
em confetes para gregos e gregórios
ontem fui rainha
ontem fui rainha
do meio da praça com duas lâmpadas bêbadas
o coreto bocejou e praguejou um coco de pombo
no tombo pela escadaria degraus abaixo
daquele monumento mais do que carnalvalesco
e vejam só a alça do tubinho apertadinho
esticado silicone fio-de-aço
não agüentou o amasso
e mostrou todo aquele corpinho passista
ora, ora, qual o quê!
mary columbus para os gringos
ajeitou os brincos de estrasse
rodopiou numa ginga capoeira
e se foi pela rua dias da cruz
ontem eu fui rainha
ontem eu fui rainha
um bonde parado no tempo a tudo assistia
e joão nogueira cantava:
“você sabe, eu sou do méier...”

Sérgio Gerônimo, in CÓDIGO DE BARRAS, Oficina, Rio/RJ, 2007

SERÁ QUE O SÉCULO COMEÇOU MESMO?

ATENDE 2010!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

EXPECTATIVA

a vida é tão curta
e minha capacidade de criar tão intensa
quase me perco e delirante misturo
da imaginação abuso e peco
mas não impeço o futuro
acoplado contigo em denso nevoeiro
em sons plenos do conhecido desejo
em cores ardor cintilantes
olhos extasiados à visão turva
cabelos armados qual louca
ao teu ouvido
o ardente silêncio de minha boca
minhas mãos adelgaçam tua cintura
as tuas tragam no aperto minha nuca
tu me amas!
a vida é tão curta
e minha alma tão tensa de viver
que permaneço dopado desequilibrado
eu sei
me esforço para não contrariar o devaneio
às vezes me rebelo o elo arrebentar quero
porém não importa
se não for teu corpo... ao meu dorso
tua força suprema chama
e de olhos estrelados
sou desmaterializado
ardo sobre tua cama
acorrentado por teus anseios sou
escuto teus lábios siderantes
aperte...
sugue...
beije...
a vida é tão curta
e minha capacidade de criar tão intensa
e minha alma tão tensa de viver
e minha vida...
e minha vida?
ainda assim é tão curta!

Sérgio Gerônimo & Flávio Dórea, in CONVERSA PROIBIDA, 2009, OFICINA

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

viver pra quê?

9 horas da manhã
buzinas, cheiro de café
um pão com manteiga que torrou
meus olhos vidraças quebradas
de uma noite inconstante
de relógios terroristas
em flash backs horários
arre! quanta preguiça
procuro abraçar o meu mundo
em um bom-dia afetivo
mas o fog não londrino
encobre corações e atitudes
tento em um repente
me abrigar no acetato
estático do mar em frente
enfrento ondas de pensamentos
surfo interrogações
mas a maré não está pra...
deixa pra lá!
um vento passeia
despreocupadamente meus cabelos
9 horas e um minuto desta manhã
mal se deu o start da minha vida
quantas sobrevivências
arre! será que eu aguento
tanta preguiça?

Sérgio Gerônimo, in CÓDIGO DE BARRAS, Oficina, Rio/RJ, 2007