chove à noite no rio
Chove à noite no rio
e da janela do meu apartamento
eufórico
sinto o pulsar inconstante
da humanidade
nada tem a ver com nada
mas tudo é tão sincrônico
esta rede de ações e reações
a mim intriga
chove à noite no rio
e da janela do meu apartamento
pontos vermelhos fogem
fingem
outros piscam
interagem sem o perceber
em cada automóvel
uma história dirige
a minha vida
é a rede...
de intrigas
chove
e na janela
transpassa um micromundo
o silêncio – cheio de vazios
uma sensação déjà vu
grita na presença do senhor dos ventos
à noite
no meu apartamento
no apartamento ao lado
qualquer percepção é macropercepção
quando o negrume dominante invade
sou ouvidos e tatos
absurdamente procuro o sono
sentinela de plantão
em cada calçada
da minha vigília
no rio
o pulsar de um planeta...
o meu pulsar
azul-água
sou apêndice a esse todo
pulso avenidas e ruas
em disparada expansão
chove à noite no rio
na zona sul, na zona norte, na zona oeste
simplesmente chove
chove...
na zona...
e na porta do meu apartamento
uma madame...
satã de irônico sorrizinho
justifica-se:
são tantas incógnitas os cruzamentos
e lá em baixo na calçada um interrogativo hidrante
se pergunta: porra! o que faço aqui?
piso a faixa branca da siqueira campos
ou da mem de sá, sei lá!
surdo, cego e mudo
me atropelo em minhas aberrações
chove à noite no rio
eu no meu apartamento
insisto, insisto, insisto
deliberadamente
em minhas delinquências
sábado, 28 de novembro de 2009
febre
(para Nilton Alves)
Os arcos da lapa
ardem de febre
é − ardem
junto a eles as moças-de-boa-família
ardem de febre
os bondes-de-teresa sobrevoando
ardem de febre
cães e postes dualidade inseparável
ardem de febre
as ratazanas que atazanam os hot-dogs
ardem de febre
(cebolas e pimentões também)
os holofotes imaginários desse palco
ardem de febre
é − ardem
a poesia espreita pelas esquinas
elas?
ardem de febre
e eu nesse semáforo quebrado
espero e espero o frio passar
é − espero...
in Código de barras, Sérgio Gerônimo, OFICINA, 2007
Os arcos da lapa
ardem de febre
é − ardem
junto a eles as moças-de-boa-família
ardem de febre
os bondes-de-teresa sobrevoando
ardem de febre
cães e postes dualidade inseparável
ardem de febre
as ratazanas que atazanam os hot-dogs
ardem de febre
(cebolas e pimentões também)
os holofotes imaginários desse palco
ardem de febre
é − ardem
a poesia espreita pelas esquinas
elas?
ardem de febre
e eu nesse semáforo quebrado
espero e espero o frio passar
é − espero...
in Código de barras, Sérgio Gerônimo, OFICINA, 2007
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Pêssego
encostei
costa a costa
qual náufrago sôfrego
arfava de tantas braçadas
em ondas surfistas
pensei atracar e te explorar
porém
costas surdas areias alheias
vegetação vadia e um quê
de pura anarquia
ativou meus sonares
meus arquivos e fechei o programa
saí desordenado
dobrei as mangas
por fim pequei
mordi
lambi
comi
e o gosto veludo
de teu pêssego amordaçou
o céu que em minha boca
teimava em excitar teus calores
voltei à praia bêbada
e bêbado com o marulhar
engoli tua pele, pêlos, carne
deliciosamente
cuspi o caroço
inoculando
e enlouquecendo
a tua semente
Do livro COXAS DE CETIM, 2000, Sérgio Gerônimo, Oficina Editores.
costa a costa
qual náufrago sôfrego
arfava de tantas braçadas
em ondas surfistas
pensei atracar e te explorar
porém
costas surdas areias alheias
vegetação vadia e um quê
de pura anarquia
ativou meus sonares
meus arquivos e fechei o programa
saí desordenado
dobrei as mangas
por fim pequei
mordi
lambi
comi
e o gosto veludo
de teu pêssego amordaçou
o céu que em minha boca
teimava em excitar teus calores
voltei à praia bêbada
e bêbado com o marulhar
engoli tua pele, pêlos, carne
deliciosamente
cuspi o caroço
inoculando
e enlouquecendo
a tua semente
Do livro COXAS DE CETIM, 2000, Sérgio Gerônimo, Oficina Editores.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
tive medo!
abandonei meus cadernos / rascunhos mofados / que vida era aquela? // uma sombra conduzia meus pés / a se enfiarem pelas mãos / elas que se manchavam de letras / escorrendo pelo corpo / entranhando sensações // não aguentei! / inventei amanheceres / desconheci escuridões / gelei sangue / e sanguessuga / coagulei instintos // se fosse valer a pena / eu teria escrito quase todos / penso até que imitaria alguns / sou heterônimo das rubricas / enlouquecidas de devassidão / em vigílias de devastidão / terra arrasada // sem preâmbulos e nem posfácios / pois seriam por demais explicadores /subverto-me / jogo-me em outras vidas / não escrevo mais / deixo que acreditem / desprezo qualquer desespero / e tudo isto / é pura leitura de entretenimento
in, CONVERSA PROIBIDA, de Sérgio Gerônimo & Flávio Dórea , 2009
Sérgio Gerônimo no evento Terça ConVerso no Café, Teatro Glaucio Gill, Copacabana, Rio/RJ, coordenação do Grupo Poesia Simplesmente
abandonei meus cadernos / rascunhos mofados / que vida era aquela? // uma sombra conduzia meus pés / a se enfiarem pelas mãos / elas que se manchavam de letras / escorrendo pelo corpo / entranhando sensações // não aguentei! / inventei amanheceres / desconheci escuridões / gelei sangue / e sanguessuga / coagulei instintos // se fosse valer a pena / eu teria escrito quase todos / penso até que imitaria alguns / sou heterônimo das rubricas / enlouquecidas de devassidão / em vigílias de devastidão / terra arrasada // sem preâmbulos e nem posfácios / pois seriam por demais explicadores /subverto-me / jogo-me em outras vidas / não escrevo mais / deixo que acreditem / desprezo qualquer desespero / e tudo isto / é pura leitura de entretenimento
in, CONVERSA PROIBIDA, de Sérgio Gerônimo & Flávio Dórea , 2009
Sérgio Gerônimo no evento Terça ConVerso no Café, Teatro Glaucio Gill, Copacabana, Rio/RJ, coordenação do Grupo Poesia Simplesmente
Sobre CONVERSA PROIBIDA II
Conversa proibida é o cruzamento de muitas coisas que, em outras épocas, se separavam ou se contradiziam, mas que, na correnteza do nosso tempo, se entrefecundam. É, por exemplo, um livro de poesia escrito a quatro mãos: coisa rara ainda hoje. Ele se encontra entre a poesia lírica e a poesia dramática: poesia lírica no ponto da ebulição dramática, poesia dramática no ponto da contemplação lírica. E se, desse modo, os gêneros literários se confundem e redefinem, isso ocorre, não por mero exercício estilístico, mas como parte da descoberta e da celebração da matéria poética da vida contemporânea, cujos gêneros também se confundem e redefinem num turbilhão de desejo e criação, nylons e néons, livros antigos e celulares perdidos, língua e tesão, quartos sujos de motéis baratos e saltos altos, rimbauds e abismos, jogo e poesia. Vale a pena deter-se nas esquinas verticais desse livro vital e belo.
Antonio Cicero
se quiseres transar comigo / tens que ser profano / não escolho sexo / apenas que use teu corpo / frente e verso / o sexo dos anjos / os movimentos nossos / dança celestial / banhada em hóstia e vinho / o toque / só com os olhos / o ato, seu cheiro / já ouço até as trombetas / beatificando nosso ritual / e ao final absinto, rimbaud e abismo
in Conversa proibida, Sérgio Gerônimo & Flávio Dórea
Antonio Cicero
se quiseres transar comigo / tens que ser profano / não escolho sexo / apenas que use teu corpo / frente e verso / o sexo dos anjos / os movimentos nossos / dança celestial / banhada em hóstia e vinho / o toque / só com os olhos / o ato, seu cheiro / já ouço até as trombetas / beatificando nosso ritual / e ao final absinto, rimbaud e abismo
in Conversa proibida, Sérgio Gerônimo & Flávio Dórea
domingo, 15 de novembro de 2009
código de barras
Nenhum tempo é suficiente
o facho de luz verde/vermelho
senvergonhamente lê espaços
escala linhas verticais
escaneia do topo ao sopé
horizontal lente
integra indistintamente números e letras
páginas e rótulos
é soberano
não existe leitura igual
nem sentimentos desprezíveis
sequer expressões do tipo
já conheço!
são únicos
demonstra surpresa no ato
quando desata os nós dos vocês
individualmente marca
registra a tatuagem − você
manifesta-se ao mundo por extensão
vértices vindo em algarismos
se zero ou um − binariamente não sei
xis, ípisilon ou zê de séries inimaginávies
em vademecuns perdidos talvez
mas você é código
(inviolável)
ser código é até plausível
puras exclamações
barra é ser poeta
Sérgio Gerônimo, in Código de barras, Oficina Editores, Rio/RJ, 2007
o facho de luz verde/vermelho
senvergonhamente lê espaços
escala linhas verticais
escaneia do topo ao sopé
horizontal lente
integra indistintamente números e letras
páginas e rótulos
é soberano
não existe leitura igual
nem sentimentos desprezíveis
sequer expressões do tipo
já conheço!
são únicos
demonstra surpresa no ato
quando desata os nós dos vocês
individualmente marca
registra a tatuagem − você
manifesta-se ao mundo por extensão
vértices vindo em algarismos
se zero ou um − binariamente não sei
xis, ípisilon ou zê de séries inimaginávies
em vademecuns perdidos talvez
mas você é código
(inviolável)
ser código é até plausível
puras exclamações
barra é ser poeta
Sérgio Gerônimo, in Código de barras, Oficina Editores, Rio/RJ, 2007
terça-feira, 10 de novembro de 2009
SOBRE CONVERSA PROIBIDA I
“O trabalho que vocês fizeram é simplesmente fantástico. Conversa Proibida tem que virar referencial da poesia aqui no Brasil. É um trabalho da maior seriedade”.
Conversa Proibida é a afirmação de que a palavra tem vida própria e que o poeta é apenas o veículo de sua manifestação. Talvez por isto este livro seja tão verdadeiro, e de certa forma imaculado em sua essência, pois independente da vontade de seus condutores, e eles, não tenho dúvidas respeitaram esta visão; é vivo e assim o permanecerá por muito tempo.
Pobre destes poetas, servos da palavra e de seus “parimentos”, servos da poesia e de suas amplitudes... Ainda assim eu os saúdo e bendigo pela coragem de se prestarem ao desentranhamento de tão belos versos.
Conversa Proibida é, certamente, um dos melhores livros de poesia que tive a oportunidade de ler, uma obra que deve servir de referencial e fonte de inspiração para muitos outros, pela coragem, pela profundidade e pela sinceridade de seus autores.
Bendigo a comunhão destes dois poetas, pois mantidas as suas individualidades conseguiram gerar pura poesia para permanecer por muito tempo em minha mente, em meu coração.
Naldo Velho — poeta, ativista cultural, coordenador dos eventos MÚSICOS CONVIDAM POETAS, em Niterói/RJ e “TODAS ELAS E ALGUNS DELES”, no Rio/RJ.
Via e—mail 01/09/09, às 12:51h, naldovelho@gmail.com
Conversa Proibida é a afirmação de que a palavra tem vida própria e que o poeta é apenas o veículo de sua manifestação. Talvez por isto este livro seja tão verdadeiro, e de certa forma imaculado em sua essência, pois independente da vontade de seus condutores, e eles, não tenho dúvidas respeitaram esta visão; é vivo e assim o permanecerá por muito tempo.
Pobre destes poetas, servos da palavra e de seus “parimentos”, servos da poesia e de suas amplitudes... Ainda assim eu os saúdo e bendigo pela coragem de se prestarem ao desentranhamento de tão belos versos.
Conversa Proibida é, certamente, um dos melhores livros de poesia que tive a oportunidade de ler, uma obra que deve servir de referencial e fonte de inspiração para muitos outros, pela coragem, pela profundidade e pela sinceridade de seus autores.
Bendigo a comunhão destes dois poetas, pois mantidas as suas individualidades conseguiram gerar pura poesia para permanecer por muito tempo em minha mente, em meu coração.
Naldo Velho — poeta, ativista cultural, coordenador dos eventos MÚSICOS CONVIDAM POETAS, em Niterói/RJ e “TODAS ELAS E ALGUNS DELES”, no Rio/RJ.
Via e—mail 01/09/09, às 12:51h, naldovelho@gmail.com
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